Na cidade dos carros, vão derrubar a Perimetral a base de mentiras

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Poderia ser algum tipo de piada de mau gosto, mas não é. Vão demolir o Elevado da Perimetral. E pior: sob o argumento de se estar construindo uma cidade para pessoas, com recursos privados, no Rio Olímpico. Será mesmo?

"A Perimetral é um dos maiores símbolos de uma cidade que foi pensada para os carros e não para as pessoas", disse Alberto Silva, o presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (CDURP). E completou: “O que a gente quer com isso é o contrário, pensar uma cidade muito mais para as pessoas”.

No Rio de Janeiro “para pessoas” estão sendo construídas três vias expressas: BRT Transcarioca, Transolímpica e Transoeste. Ao colocar a sigla BRT (Bus Rapid Transit), quer se destacar a pista exclusiva para ônibus, mas que na verdade é acompanhada de várias pistas para carros. Vias que estão cortando subúrbios - ali sim espaços para pessoas - e que estão sendo destruídos. O impacto social é dramático: milhares de famílias removidas de suas casas para dar passagem a automóveis individuais.

Em julho de 2013, o grande Rio alcançou a marca de 2.765.841 (dois milhões, setecentos e sessenta e cinco mil automóveis), e o número não para de crescer. São colocados em média 400 novos carros por dia em circulação, ou 12 mil por mês, segundo dados de 2013 do Denatran. E isso sem contar motos, comionetes, micro-ônibus, etc.

Pois bem, nesse ponto podemos esclarecer a primeira mentira: o Rio de Janeiro não está sendo construído para as pessoas, muito menos para o transporte coletivo. Está sendo construído para os carros, com todas as consequências negativas que isso gera à cidade

O segundo ponto importante é em relação a origem dos recursos do projeto Porto Maravilha. Segundo a Prefeitura do Rio, a iniciativa privada estaria bancando todas as obras da região, como a derrubada da Perimetral, a construção do Museu do Amanhã e a recuperação da infra-estrutura urbana com novos calçamentos e aberturas de ruas.

Mas quem adquiriu todos os 6,4 milhões de certificados vendidos pela Prefeitura ao custo de R$ 3,5 bilhões foi o Fundo de Investimento Imobiliário Porto Maravilha, controlado pela Caixa Econômica Federal, com recursos do FGTS. Agora o Fundo terá que revender os títulos para recuperar o investimento. Na primeira tentativa, o mercado não se interessou. O Estado assumiu o risco, através de um banco público, para viabilizar o projeto que está sendo divulgado como possível através de recursos privados.

Ou seja, não é verdade que os recursos são privados, eles vêm do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, dos trabalhadores. A estratégia da Prefeitura, com o apoio da mídia, é repetir uma mentira mil vezes para virar verdade.

O terceiro mito é a capacidade da Perimetral de degradar a zona portuária. Está claro que elevados, assim como vias expressas, prejudicam bairros residencias com seu excesso de carro, barulho e fumaça. São as consequências de se viver numa cidade que estimula o uso diário do automóvel individual para mobilidade urbana.

Mas os bairros da região portuária poderiam se recuperar e atrair novos residentes sem a demolição da Perimetral, com investimento em ruas agradáveis, praças e comércio, recuperando seus equipamentos históricos. Até porque o elevado passa à margem das zonas residenciais. O altíssimo custo da demolição poderia ajudar muito na recuperação dessa e de outras áreas da cidade.

Não foi a Perimetral em si que degradou a zona portuária, mas sim seu absoluto abandono e falta de investimento pelo poder público.

É nesse contexto, portanto, que derrubar uma estrutura como essa mostra toda incoerência de uma Prefeitura baseada no marketing. Decide-se demolir um elevado útil e em boa conservação para ser substituído por uma via expressa. Continua-se investindo em um sistema de transporte irracional, baseado na habilidade individual de cada condutor e que um erro pode gerar o caos na cidade, apesar do discurso contrário.

Ao colocar a Perimetral abaixo, a Prefeitura quer projetar para o mundo a imagem de uma cidade para pessoas, num Rio que virou um canteiro de obras para a construção de túneis, pontes e vias expressas. Cada vez mais vivemos numa cidade para carros. Resta saber se dessa vez o marketing vai conseguir superar a realidade das horas perdidas no trânsito já caótico e que poderá se tornar insuportável.

Quem sabe a queda do elevado não leve junto um entrave muito maior para o Rio de Janeiro: o próprio prefeito Eduardo Paes.

O Metrô Rio está vendendo o nome das estações da cidade. O próximo passo são as associações de moradores negociarem o patrocínio do nome dos seus bairros. Então os cariocas morariam no bairro Fanta Laranjeiras, no Colégio-PH ou no Oswaldo Roche Cruz. Tudo isso, claro, com a justificativa que os recursos serviriam para requalificar e investir nos bairros. Alguém tem dúvida que seriam bairros da cidade RJX?

O projeto é em parceria com a IMX de Eike Batista, a mesma empresa que quer assumir a gestão do Maracanã. Conheça aqui: http://www.metrorio.com.br/estacao_patrocinada/index.html

A invisibilização da pobreza e dos pobres no Rio Olímpico

Por Renato Cosentino*

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Uma campanha publicitária internacional da Petrobrás exibiu em 2011 fotografias do Rio de Janeiro, de Nova York e de Paris a 6 mil metros de altura, em alusão aos 6 mil metros de profundidade de onde a empresa irá extrair óleo da camada pré-sal. Em destaque na imagem do Rio a praia de Copacabana e o Pão de Açúcar. Mais ao fundo a Zona Sul e Norte com o Cristo Redentor e o Maracanã. Faltaram, porém, as dezenas de favelas que compõem o cenário da região. Só no Rio uma parte da cidade foi apagada com recursos de edição de imagem.

Também em 2011 uma matéria do jornal O Globo noticiava que, a pedido da Prefeitura do Rio, o Google iria diminuir a presença das favelas no seu serviço Google Maps. O fato se concretizou em 2013, com a exclusão da palavra “favela” em praticamente todo o mapa, a hierarquização das informações com as favelas reduzidas ao mesmo destaque das ruas e o sumiço de algumas comunidades. Em 2010 já haviam sido erguidas barreiras acústicas, ou muros, nas duas principais vias expressas de ligação do aeroporto Internacional do Galeão ao Centro/Zona Sul e Barra da Tijuca. Uma pesquisa revelou a percepção dos moradores e dos motoristas que passam pelas vias: o muro está servindo muito mais como barreira visual, não como barreira acústica. 

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Esses fatos não são coincidências, e a tentativa de invisibilizar os pobres e a pobreza no momento em que o Rio de Janeiro se prepara para receber grandes eventos internacionais também não se limita ao plano simbólico. Para 30 mil moradores da cidade, a remoção virtual do mapa do Google está se tornando real. Segundo dados do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas, cerca de 8 mil pessoas já foram removidas, e cinco comunidades não existem mais. O procedimento é semelhante em toda a cidade: envio de famílias para periferia com oferta precária de serviços básicos, como transporte, baixo valor de indenizações e forte pressão da especulação imobiliária.

Um outro braço dessa política se estabelece sob o discurso da ordem pública, que com a mesma truculência mistura diferentes questões como estacionamento irregular, população em situação de rua e trabalhadores informais. No bairro da Glória, onde foi instalada uma Unidade de Ordem Pública (UOP), há dezenas de guardas nas esquinas para que o famoso shopping chão, onde se podia encontrar antiguidades e quinquilharias sendo vendidas na calçada, não se instale mais. Os camelôs receberam autorização para trabalhar apenas em locais que ninguém passa e sumiram, assim como a população em situação de rua, que foi recolhida. O que acontece com essas pessoas? São levadas para abrigos longínquos, várias vezes. A estratégia é cansá-las para não voltar mais, como disse o subprefeito Bruno Ramos.

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A UOP é inspirada na UPP, as Unidades de Polícia Pacificadora que cada vez mais mostram sua face de controle militar do território ocupado e menos de segurança dos moradores. No dia 20 de março, Matheus Oliveira Casé, de 16 anos, foi morto pela polícia pacificadora em Manguinhos. No dia 4 de abril, Aliélson Nogueira, de 21 anos, também foi assassinado pela polícia pacificadora, agora no Jacarezinho. As edições online dos jornais falavam em tiroteio entre tráfico e polícia, mas Matheus foi morto ao receber um tiro de pistola de choque e Aliélson com uma bala na nuca enquanto comia um cachorro quente. Muitos jornais simplesmente ignoraram o fato destacando na semana a violência contra turistas estrangeiros e como isso gera um impacto negativo para a imagem da cidade.

A invisibilização que sai do plano simbólico para o real atinge um público bem específico, a juventude pobre e negra da cidade, principal alvo do encarceramento em massa em curso no Brasil. Em 1995, havia 148 mil presos no país, número que subiu para 473 mil em 2009. O Brasil possui hoje a terceira maior população carcerária do mundo e a prisão começa a virar negócio, com os presídios privados. Como tudo se justifica pela realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, foi anunciada a compra de caveirões e a construção de novos presídios no Rio de Janeiro para a segurança dos grandes eventos. É a solução dada para essa parcela da população que não serve à cidade olímpica, que deve ficar bem longe, nos conjuntos habitacionais construídos fora da cidade, ou simplesmente sumir, presa ou executada pela ação da polícia.

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Mas o brilho dos grandes eventos esportivos começa a esmorecer, o marketing não consegue sustentar uma imagem construída sobre base tão frágil, e aos poucos a cidade real se impõe. Para mudar a realidade do Rio de Janeiro não basta ostentar teleférico em favela enquanto falta saneamento básico nas casas fotografadas pelos turistas. Não basta acesso a bens de consumo se falta habitação. E não basta habitação sem cidade. Para construir uma outra realidade social há muito trabalho pela frente, e no momento em que há recursos disponíveis para de fato se iniciar uma mudança profunda na cidade, eles são drenados para obras de prioridade questionável ou para destruir a infraestrutura já existente, como no caso do Maracanã e da Perimetral, sem qualquer debate público. O Rio de Janeiro está no caminho errado, e talvez por isso queira tanto esconder a pobreza da cidade. Mas como disse uma moradora da Maré: ”O que adianta esconder? A gente existe, não adianta esconder não”. Pois é, recado dado.

* Renato Cosentino é mestrando do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, trabalha na organização de direitos humanos Justiça Global e participa do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro.

No momento em que o Rio de Janeiro sofre com mais uma onda de privatizações, por que não avaliar o resultado das que já passaram? Após 15 anos de transporte ferroviário na mão de diferentes empresários, nos deparamos com uma capa como essa nos principais jornais da cidade: caos nos trens. 15 anos não é tempo suficiente para se melhorar o sistema ferroviário ou eles estão ali apenas para cobrar uma das passagens mais caras do mundo? Cadê a Agetransp, agência reguladora do setor?

Num país mais sério em que o bloco político-empresário-mídia não fosse tão coeso, o único debate que caberia agora é a reestatização do serviço após 15 anos de incompetência. Afinal, se o Estado tem recursos para gastar R$ 1 bilhão em mais uma reforma do Maracanã, não é possível que não possa investir nos trens urbanos, que atendem a milhões de trabalhadores do subúrbio e da baixada. Mas não dá para esperar isso de um governo que tem a desfaçatez de querer privatizar até o Maracanã. Tempos difíceis no Rio de Janeiro.

No dia 20 de março, Matheus Oliveira Casé, de 16 anos, foi morto pela polícia pacificadora em Manguinhos. No dia 4 de abril, Aliélson Nogueira, de 21 anos, também foi assassinado pela polícia pacificadora, agora no Jacarezinho. No dia 6 de abril, o jornal Estado de São Paulo fez uma matéria sobre a violência no Rio:

"Três tragédias ocorridas sucessivamente no Rio de Janeiro nos últimos dias parecem sintomas de algum distúrbio oculto. Na manicure que asfixiou sem dó um menino de 6 anos com quem convivia, no estupro brutal de uma turista americana que pegou uma van em Copacabana e na agressão incompreensível que teria provocado a queda de um ônibus de cima de um viaduto expressam-se os sintomas de um antigo mal-estar de nossa civilização: a violência".

ATÉ QUANDO ESSAS E OUTRAS MORTES DA JUVENTUDE POBRE E NEGRA DO RIO DE JANEIRO VÍTIMA DA VIOLÊNCIA DO ESTADO VÃO CONTINUAR SENDO IGNORADAS PELA GRANDE MÍDIA? PACIFICAÇÃO PRA QUEM?

Largo do Tanque: mais uma remoção sumária para as Olimpíadas do Rio de Janeiro

Depois de 2012 ter sido um ano (eleitoral) relativamente calmo em relação às remoções no Rio de Janeiro, não demorou muito para que os tratores da Prefeitura voltassem a agir. As denúncias feitas por organizações de direitos humanos, pelos principais jornais do mundo e as recomendações da ONU contra as remoções forçadas não parecem intimidar o poder público municipal, que se utiliza dos Jogos Olímpicos para executar toda e qualquer intervenção urbana de forma arbitrária e sem respeito aos moradores atingidos. No Largo do Tanque, em Jacarepaguá, as casas começaram a ser marcadas na semana anterior ao Carnaval e em 22 de fevereiro, das cerca de 50 famílias, menos de 10 resistiam. Centenas de pessoas despejadas em apenas três semanas.

image Casa destruída no Largo do Tanque, em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio: moradores relatam violações do direito à moradia por parte da Prefeitura. (Foto: Renato Cosentino)

Os relatos são assustadores: tortura psicológica, intimidação e baixíssimo valor das indenizações. A estratégia de negociação é perversa, com valores sendo reduzidos ao longo do tempo, para pressionar os moradores a aceitarem a primeira oferta, sempre abaixo do preço de mercado. As famílias denunciam que são ameaçadas pelo assessor da Prefeitura a não procurar a justiça, porque estariam em situação ilegal e perderiam seus imóveis sem qualquer reparação. Os moradores do Largo do Tanque, no entanto, estão no local há mais de cinco anos e mesmo assim a Prefeitura insiste em não reconhecer o direito constitucional à posse da terra (caso fosse privada) e à moradia de forma geral, pagando apenas pelas benfeitorias, o que não é suficiente para adquirir uma nova habitação. As indenizações não passam de R$ 30 mil e há relatos de famílias que terão que recomeçar a vida com apenas R$ 7 mil. Também não há registro público da ação e os moradores não estão recebendo nenhuma notificação ou comprovante oficial durante o processo de despejo.

image Desespero: Rosilene não sabe onde vai morar com seu marido e filhos, um deles com necessidades especiais. (Foto: Paulo Alvadia/O DIA)

No Brasil, dois documentos já trataram do assunto, o relatório da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (Dhesca) e o dossiê do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro. Ambos concluíram que casos como o do Largo do Tanque não são isolados: existe um padrão de ação da Prefeitura do Rio que viola direitos humanos. Falta de informação, ausência de envolvimento das comunidades na discussão dos projetos, negociações sempre individualizadas, baixo valor de indenizações, perseguição de moradores que procuram a justiça e tratamento desrespeitoso por parte do poder público foram traços comuns identificados em dez comunidades visitadas numa missão em 2011. Dois anos depois, nada mudou.

Apesar de muitas dessas remoções utilizarem as Olimpíadas como argumento, há outros interesses envolvidos, como os do mercado imobiliário. Na Vila Autódromo, a urbanização estava prevista no projeto vencedor do concurso internacional para o Parque Olímpico e a comunidade apresentou um plano popular com a participação de duas universidades federais, mas a Prefeitura insiste na remoção. As comunidades do bairro do Recreio foram removidas há dois anos para a construção do BRT Transoeste, mas a autopista já foi inaugurada e os terrenos que seriam necessários para a obra estão subutilizados ou sem uso. Nenhum morador do Largo do Tanque viu o projeto para a área e, quando questionado sobre qual seria o destino do terreno, o assessor da prefeitura não quis comentar o assunto. Será que não havia outra opção?

image O prefeito Eduardo Paes diz que apenas a Vila Autódromo estaria sendo removida por causa das Olimpíadas, mas cartão entregue aos moradores do Largo do Tanque possui a marca dos Jogos, sendo mais uma forma de pressioná-los. (Foto: Renato Cosentino)

A população mais pobre do Rio de Janeiro vive hoje numa cidade sem lei. É como se um cartão com a marca olímpica desse superpoderes aos agentes públicos municipais para passar por cima da Constituição Federal, dos acordos internacionais assinados e ratificados pelo Brasil, e pelas recomendações das Nações Unidas. O governo federal finge que não vê e o Comitê Olímpico Internacional não se pronuncia sobre as denúncias de violação de direitos humanos por causa dos Jogos. Todas as famílias do Largo do Tanque estão saindo para uma situação pior do que se encontravam no início do processo de remoção, o que é inaceitável. No momento em que o Rio de Janeiro tem a oportunidade de mostrar para o mundo que pode superar as desigualdades sociais que marcaram a sua história, está fazendo questão de reforçá-las. Uma vergonha.

Renato Cosentino é mestrando do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ, trabalha na organização de direitos humanos Justiça Global e participa do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Em Madri, bicicletas feitas manualmente a partir de peças de carros encontradas em ferros-velhos. Veja só no vídeo e no site do projeto.

Pra quem quiser entender porque no país que é a 6ª economia do mundo ainda persiste a extrema pobreza e a desigualdade social. Desigualdade instituída e mantida por um Estado que serve aos interesses de uma classe, como mostra esse belíssimo documentário de Vladimir Seixas e Chapolim. Prédios apodrecem enquanto pessoas dormem na rua. Faz sentido? “Que mundo é esse?”

Essa é a cara e a cor do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro, fórum consultivo para auxiliar a revisão e o acompanhamento do Plano Estratégico da Prefeitura. Segundo o plano, “cidadãos destacados na sociedade foram convocados para criticar e avaliar as questões e os projetos municipais”. Os conselheiros se reuniram quatro vezes durante o processo de construção do documento e agora se encontram semestralmente. Já os “cidadãos comuns” foram ouvidos numa pesquisa de opinião.

Uma cidade que quer realmente ouvir seus moradores não deveria criar fóruns permanentes de discussão? Esses fóruns, mais do que consultivos, não deveriam ser também deliberativos? Uma cidade socialmente justa em que seus cidadãos são plenos de direitos pode ser dividida entre “cidadão destacado” e “cidadão comum” na elaboração de suas políticas públicas? Não é difícil perceber que uma cidade governada pela elite e aconselhada pela elite é construída para… elite. É o que está acontecendo no “novo” Rio de Janeiro.

Moradores removidos por obra olímpica há dois anos continuam sem indenização no Rio de Janeiro

Comissão de Atingidos da Transoeste tem se reunido para garantir direitos de moradores; veja o mini-documentário sobre a história de Francisca

Em 17 de dezembro de 2010, Michel Souza dos Santos e Francisca Melo, ex-moradores da Restinga, no Recreio dos Bandeirantes, viram suas casas serem destruídas pelos tratores da Prefeitura em questão de minutos. Não apenas o trauma ficou daquele dia, mas a sensação de injustiça com indenizações irrisórias ou simplesmente o esquecimento por parte do poder público. Os dois faziam parte do grupo que mais resistiu à remoção forçada.

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Há dois anos, Michel aguarda indenização da Prefeitura após perder sua casa e oficina

“Nós lutamos contra a remoção, e parece que servimos de exemplo para as outras comunidades não brigarem por seus direitos. Não me arrependo, faria tudo de novo, mas agora estamos nessa situação”, disse Michel, que é um dos cerca de 20 moradores que não recebeu nenhum centavo da Prefeitura do Rio. Sem ter para onde ir, ele morou de favor, de aluguel, e agora está construindo uma casa em Pilares.

“Antes morava num lugar tranquilo, agora estou perto do morro e é tiroteio direto. Não pego o BRT porque não dá, vem lotado, e acabo demorando duas horas pra ir e mais duas pra voltar”, completou. Além da casa, Michel tinha uma oficina na Restinga há 12 anos. Apesar de continuar trabalhando no local para manter seus clientes, agora está numa loja alugada.

Já Francisca, com a ajuda de parentes, está refazendo a sua vida na comunidade do Fontela (conheça a sua história no mini-documentário abaixo). “O Secretário de Habitação (na época Jorge Bittar) falava que a gente já saía encaminhado para um trabalho, o que não aconteceu de maneira nenhuma. Nós saímos de lá sem nada. Então é falho isso, é uma grande falha falarem que as pessoas estão sendo remanejadas dentro dos seus direitos, negativo”, enfatizou Francisca.

Casos como o de Michel e Francisca estão sendo tratados na Comissão de Moradores Atingidos pela Transoeste, grupo que tem se reunido para dar visibilidade às violações de direitos que aconteceram na região, exigir reparações adequadas aos danos causados e fortalecer a luta de comunidades vizinhas.

“Muitas questões ainda não foram resolvidas e os moradores estão numa situação pior do que antes. A experiência que a gente passou com relação à Transoeste pode ser útil, pode ajudar nos desafios que estão postos a outras comunidades”, disse Alexandre Mendes, que na época era Defensor Público e atendeu com a equipe do Núcleo de Terras e Habitação as comunidades do Recreio.

Assim como a Restinga, Vila Recreio II e Vila Harmonia também sofreram ofensivas no período e já não existem mais. O motivo seria a construção do BRT Transoeste, mas hoje grande parte dos terrenos estão desocupados ou tendo outros usos, o que tem sido questionado pelos atingidos. Nada foi feito no local da Vila Recreio II e a Vila Harmonia se transformou em estacionamento para máquinas da Prefeitura. Já a área removida da Restinga deu espaço a três novas pistas para carros, não para o BRT.

“Queremos justiça, mostrar que eles estavam errados, para que isso não volte a acontecer nunca mais”, finalizou Michel.

Veja o que foi feito com o terreno das comunidades após dois anos de remoção:

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Área antes ocupada pela Vila Recreio II permanece sem uso

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Área removida da Restinga deu lugar a três pistas para carros, não para BRT

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Vila Harmonia se transformou em estacionamento para máquinas da Prefeitura

As teorias para justificar um modelo irracional de mobilidade urbana são fantásticas. Na notícia da Folha de São Paulo, as ciclofaixas estariam prejudicando o trânsito de domingo na cidade, e não a venda de 91.290 novos carros apenas em outubro de 2012 no Estado, uma média de 2 carros por minuto (dados da Fenabrave). Quantas pessoas que estão de bicicleta estariam dentro do carro no domingo? Uma questão que não está em pauta na notícia. Mas dá pra entender o porquê, na própria imagem as propagandas de carros 0km (e de seguros, e travas eletrônicas) pipocam. Imagina se essa ideia de ciclofaixa pega no principal mercado de automóveis do país?

PP e Maluf na Secretaria de Habitação e na Cohab, NÃO!

Nós, lideranças dos Movimentos de Moradia, Entidades Populares e Comunitárias,  de várias regiões da Cidade de São Paulo, preocupadas com os encaminhamentos dados ao processo de transição e discussão em relação à Secretaria de Habitação e COHAB do Município de São Paulo, viemos manifestar o nosso veemente repúdio a qualquer possibilidade do Partido Progressista e Paulo Maluf interferirem ou indicarem representantes deste nefasto partido para Secretaria de Habitação e COHAB do Município de São Paulo.
 
A história do PP e de Paulo Maluf é conhecida em São Paulo, com perseguição e criminalização aos movimentos sociais e populares, agressões aos trabalhadores informais e população em situação de rua, agenda de despejos e remoções, paralisação dos programas de mutirões e habitação popular, corrupção, abandono e falta de políticas para as áreas centrais, além do trágico projeto Cingapura.
 
Além disso, o Ministério das Cidades, ocupado pelo PP, na verdade, funciona como balcão de negócios. Toda política do PAC e do Programa Minha Casa, Minha Vida é feita de forma direta entre o Ministério do Planejamento e a Secretaria Nacional de Habitação. No Estado de São Paulo, o PP comanda a CDHU e todas suas ações na área de habitação são pífias ou medíocres. Foram os representantes do PP que enrolaram os movimentos e privatizaram a CDHU durante a gestão do PSDB no Estado São Paulo.
 
O Prefeito eleito Haddad, disse que iria ouvir os movimentos sociais e a hora é esta, para que possamos manifestar nossa indignação com esta possibilidade.
 
Nunca aceitamos e não aceitaremos esta aliança. O que esperar de uma situação desta? Que o PP dê conta desta grave situação da habitação em São Paulo? Este partido nem de longe está ao alcance das responsabilidades assumidas na campanha de Haddad à prefeitura de São Paulo, nem está à altura do plano de governo na área de habitação, construído de forma ampla e participativa com os movimentos de moradia e os setoriais do PT, propiciando um grande envolvimento na campanha de Haddad à prefeitura de São Paulo.
 
Os Movimentos Populares não engoliram de forma alguma esta aliança com o PP de Paulo Maluf que, durante a campanha, gerou grande constrangimento ao Partido dos Trabalhadores, à sua Militância, aos Movimentos Sociais e ao próprio candidato Haddad. Em nossa opinião, os únicos que ficaram felizes com esta aliança foi o PP e o próprio Maluf,  que condenado por corrupção, com toda cara de pau,  se promoveram e beneficiaram às nossas custas.
 
Fora Maluf e fora PP da Secretaria de Habitação e COHAB de São Paulo!
 
São Paulo, 19 de novembro de 2012.
 
Central de Movimentos Populares (CMP)
União dos Movimentos de Moradia da Grande São Paulo e Interior (UMMSP)
Frente de Luta pela Moradia (FLM)
Grupo de Articulação de Moradia do Idoso (GARMIC)
Movimento de Moradia da Região Centro (MMRC)

Durante três anos, no fim da década de 90, José Luis Guerín registrou a demolição de uma seção inteira do Bairro Chinês, habitado pelas classes trabalhadoras de Barcelona (Espanha), e a construção de um complexo residencial moderno para a nova classe média catalã. O processo de mutação da paisagem urbana implicava também na mutação da paisagem humana. Um documentário de observação que ajuda a compreender muito do que tem acontecido hoje nas áreas centrais do Rio de Janeiro. Veja na íntegra.

Em 6 de dezembro de 1988, Luiza Erundina afirma a empresários que o dinheiro previsto para a construção de túneis daria para erguer 240 mil casas populares. Três dias depois, anuncia seu secretariado com Paul Singer (Planejamento), Ermínia Maricato (Habitação), Marilena Chauí (Cultura), Paulo Freire (Educação), entre outros. Mais de duas décadas após a redemocratização, é possível sonhar com uma Prefeitura (em São Paulo ou em qualquer outra cidade) como essa?

O autoritarismo de Eduardo Paes

O direito de reunião – que incluiu o direito de passeata – é um dos princípios basilares de um Estado Democrático, mas não no Rio de Janeiro de Eduardo Paes:

O prefeito ameaça tirar da licitação topiqueiros que participarem de carreatas. Manifestações serão filmadas, e o motorista identificado será excluído da concorrência. A fiscalização das vans será chefiada pelo ex-titular da Draco, delegado Claudio Ferraz, que atuou no combate às milícias. ‘Se eu vir uma carreatazinha, vai ter fotografia e não participará da licitação. Minha sugestão é que não o faça’, ameaça o prefeito. (via O Dia)

Além do marketing, o autoritarismo é um dos pilares desse governo.